Páginas

domingo, 17 de novembro de 2013

Olhar sobre o abismo: Ensaio sobre ensino e maestria.


Por Barbara Muglia-Rodrigues


Mestranda em Cultura, Organização e Educação - FE - USP
Coordena as atividades do Núcleo de Dança do LAB_ARTE / FE-USP


Autor desconhecido (Fonte: google)

Em 2009, no início de minha licenciatura escrevi um texto intitulado “Como paramos de desenhar jiboias que digerem elefantes”, no qual a discussão se fez inspirada pelo célebre “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, e acerca da formação básica conteudista e instrumental que vivemos principalmente nos vinte primeiros anos de nossas vidas, do como ela vai podando nossa criatividade, nos ensinando a pensar padronizadamente e a criar cada vez menos.
Durante a primeira aula da disciplina de Preparação Pedagógica do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE), a qual visa a formação de professores para a docência no ensino superior, algo disparou o desejo pela releitura daquele texto e, ao relê-lo, deparei-me comigo mesma academicamente mais ingênua e imatura, mas com diversas percepções e incômodos que ainda permanecem. Comecei o texto descrevendo uma sala de aula em período letivo: “fartamente recheada” de estudantes sentados, enfileirados e de frente para o professor detentor do conhecimento. Na sequência, apontei alguns questionamentos que mais ouvi de alunos do ensino fundamental II e médio em meus primeiros estágios: “Por quê as aulas são chatas?”, “Por quê eu tenho que aprender isso?”, “No que isso me será útil?”.
Por quê estou aqui reproduzindo um texto escrito por mim anos atrás? Lendo-o hoje, como pós-graduanda em Educação na FEUSP, fiquei abismada ao perceber que essas mesmas questões são repetidas em salas de aula da Educação Infantil à Pós-graduação seja em instituições públicas ou privadas. Abismo, do grego abissos, significa “sem fundo”, foi apropriado pelo latim como abyssos, significando “profundidade”. Fazendo uso dessa metáfora, mergulharei na minha imagem abismada, à beira do abismo, com o vento no rosto, olhando para a sua profundidade e imensidão ao horizonte. Deste lugar, seguirei tecendo este texto de caráter reflexivo e pessoal como quem vai olhando ao redor e contando o que o cutuca.
As aulas da disciplina do PAE começavam sempre logo após o término dos encontros do Núcleo de Dança do Laboratório Experimental de Arte-Educação e Cultura (lab_arte), do qual sou responsável e cujas experiências e revelações recheiam e dão sentido a minha pesquisa de mestrado.
No contexto da Faculdade de Educação da USP, o lab_arte inaugura, espaços de formação viabilizadores de experiências que incitem a sensibilidade a partir da percepção da possibilidade de uma razão que pode também ser sensível, unindo aquilo que nos aparece heterogêneo a uma só existência, buscando a formação da pessoa intrínseca a cada professor em formação inicial.
Sendo lá que se dá e acontece minha mais forte relação com a docência no ensino superior e com a formação inicial de professores em graduação (alunos da pedagogia e de licenciaturas que realizam seus estágios e estudos independentes no laboratório), posso dizer que era impossível me desvincular dessas experiências no decorrer das aulas. Ali, ecos se fizeram e o primeiro, era voz de uma aluna da pedagogia da FEUSP falando de suas experiências em diversos núcleos do lab_arte:

“Participar do lab_arte me faz uma professora mais feliz.
Antes disso, em todas as aulas, eu me imaginava uma professora triste.”

Logo, outro eco começou a se intercalar com aquela voz como quem inicia uma conversa. Era eu mesma questionando:

“O quê aconteceu a essa jovem aprendiz de professora para agora, vivendo coisas dentro do lab_arte, conseguir se vislumbrar uma professora feliz?”
“Quem estamos querendo formar?”
“Quem é o profissional que queremos formar?”
“E a pessoa que queremos formar? Queremos formar pessoas ou profissionais?
Consideramos que cada profissional é também uma pessoa?”
“O que acontece nas universidades?”

            Observando o ensino superior público, vê-se que ele se dá em um espaço acadêmico com foco em pesquisa e rigor epistemológico, enquanto o ensino superior privado – apesar de possuir contextos tão diversos quanto o número de universidades que existem – costuma reproduzir uma lógica educacional instrumental e conteudista voltada fortemente para a prática profissional. No entanto, voltando nosso olhar para os dois tipos de ensino superior, percebemos que ambos estão permeados por uma razão dicotômica que fundamenta o racionalismo científico e compreende a vida e o mundo como polos antagônicos, separando sujeito-objeto, cultura-natureza, corpo-espírito, razão-sensibilidade. Os currículos seguem buscando formar acadêmicos e profissionais e se esquecem de que estão formando pessoas, de que somos aprendizes por toda a vida e que nos formamos a todo instante, no cotidiano daquilo que nos acontece, das nossas experiências.
Em uma das aulas do PAE, ouvi sobre a necessidade da “profissionalização do mestre”. Compreendo que essa colocação dizia respeito à demanda por uma maior preocupação com o preparo e com valorização da profissão de professor/docente no ensino superior, o que por muitas vezes se caracteriza mais como um trabalho extra que se faz para complementar renda. No entanto, a expressão “profissionalização do mestre” me despertou um estranhamento muito grande.
Diz Georges Gusdorf, em "Professores para quê ?" (1987, p.56):

“O professor ensina a todos a mesma coisa: o mestre anuncia a cada um uma verdade particular, e se é digno de seu trabalho, espera de cada um uma resposta particular, uma resposta singular e uma realização".

Se olharmos para o que tem se dado no âmbito do ensino superior, percebemos professores transmitindo seus conhecimentos técnicos e acadêmicos fundamentais para a profissionalização e sucesso de seus alunos. No entanto, lembrei novamente de Gusdorf (p.81):

“O mestre não limita sua influência a conselhos técnicos, a uma orientação epistemológica, não é apenas um guia do aluno através do labirinto de sua própria existência. Graças à ação persuasiva de sua presença, e talvez sem que isso seja expressamente posto em questão, desfaz as contradições íntimas: explica cada um a cada um, apontando os rumos decisivos.”

Vivemos um processo de profissionalização do mestre, o que não faz sentido em sua própria ideia, fazendo com que a noção de mestre esteja cada vez mais se perdendo. Não se aprende a ser mestre ou discípulo, mas se percebe que, de repente, na relação, mestre e discípulo acontecem. Seja de ensino básico ou superior, a sensibilidade do professorado ficou inerte após tantos anos de uma educação que enrijeceu a sua formação transformando-a em um processo de aquisição, acúmulo e utilização de conhecimentos. Sentindo a necessidade de compreender melhor sobre um possível despertar de sensibilidade, retomarei aquele primeiro eco advindo da voz de uma professora ainda em formação inicial. Me parece que o seu virar de seus olhos, o seu abrir de ouvidos, o seu ampliar de tato e fungar de nariz, de certa forma, a faz perceber-se como professora capaz de olhar mais profundamente com todos os seus sentidos os processos de formação de seus alunos, abrindo as portas de seus dias para momentos de maestria, dando sentido a sua existência docente. Esta jovem estava à beira do abismo, entristecida com o que via, com o que aprendia, com a reprodução de métodos e mergulho didático possíveis para quem está com a visão enquadrada nos padrões curriculares a ela apresentados. E, de repente, ela se viu num abismo que não era apenas precipício, mas que se apresentava como imensidão possível de práticas docentes criativamente articuladas por ela.
Dessa forma, quase beirando o romantismo, mas – ainda assim – deixando-me dominar pela trágica afirmação da vida e da realidade como elas são, "apesar de"... Reflito:

Se a educação está à beira do abismo.
O que precisamos perceber é que a beira do abismo não é o lugar
onde você só tem a opção de despencar.
A beira do abismo é o lugar em que você pode olhar para as profundezas de si
e a imensidão do mundo para, então, se preparar para alçar o voo que
Fernão Capelo Gaivota tanto buscou.



* Este blog existe ara dialogarmos sobre Educação, Arte e Cultura.
Fiquem à vontade para mandarem comentários e emails!!!

3 comentários:

  1. Bárbara querida!!! Que texto maravilhoso! Amei, amei! Sinto-me honrada por te ler!!!!

    ResponderExcluir
  2. Bárbara: belo texto, belas metáforas, belas imagens! Beijo as suas belezas...
    Sonia Carbonell

    ResponderExcluir
  3. Grata, Elni e Sonia!!! Sempre grata!!! =)

    ResponderExcluir